sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Depoimento de M.H



São 11 anos com Transtorno Alimentar; indo e vindo de uma clínica psiquiátrica que faz parte de um hospital clínico. Enlouqueci duas vezes e então passei duas temporadas no hospital psiquiátrico da cidade, lá eu dormia nos sofás espalhados por tomar tanta medição para não dar trabalho algum, lá eu dormia com medo, e minha ficha caiu; percebi que eu não teria como voltar atrás até porque eu não sabia. Trancavam meu quarto com a justificativa que eu estava dormindo demais. Então às vezes dormia no pátio, pegava algo macio e colocava no banco... A partir do momento que os médicos diziam que eu estava quase morrendo e que as consequências seriam inúmeras pela inanição, eu não me preocupava e acabava entrando no clima pra mostrar quem estava no comando. Minha nutricionista da época me indicou um médico que seria especialista em T.A e eu desesperada por alguém que me ajudasse a aliviar toda a dor o procurei. Cai em uma cilada! Perdi dinheiro e escutei que ele, o especialista, não teria nada a fazer porque nosso tempo de consulta tinha acabado e eu estava correndo risco de vida. A sensação de desespero não foi apagada. Depois dessa experiência eu vi que eu não tinha mais jeito. Minha última internação, consideram como a pior, pois tive parada cardíaca, e antes? Convulsões, idas à U.T.I e ECT? Não foram ruins? Fiquei dois meses sendo alimentada pela sonda e claro na bomba de infusão para não utilizar nenhum "truque" a meu favor. O que as pessoas esquecem é que uma anoréxica não está curada porque recuperou peso, apenas saímos do risco, e apostam todas as fichas na patética recuperação. Eu nunca me recuperei, entrava desnutrida, recuperava peso. Eu comecei a escolher e tinha todo um tempo de casa para isso; escolhia o que iria comer, os horários e onde iria comer. É muito satisfatório ver quem negou comer por tanto tempo finalmente e felizmente comendo, mas eu fazia isso porque sabia que quando começasse a comer eu teria alta e poderia voltar finamente para a inanição. A falta de conhecimento sobre a patologia me deixava revoltada, triste e sem rumo. Eu entrava no clima e às vezes ria de desespero e também não queria desapontar quem estava me ajudando a viver; e virou uma roleta russa. Me sinto envergonha por não ter construído nada, envergonha por estar assim há tanto tempo. Vergonha quando estou internada e me perguntam o que eu tenho. Todo o dia o transtorno é alimentado, às vezes por comentários, situações com a família e pessoas que são importantes. O que eu penso quando estou sendo acompanhada até o quarto que eu conheço melhor que o meu, quando me acompanham até o banheiro, tiram meus pertences cortantes ou perigosos, eu falo silenciosamente: eu sabia. Onze anos de um tratamento sem resultados, onze anos indo e vindo. Eu Sinto Muito.

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