quinta-feira, 31 de julho de 2014

Depoimento de G.N

Tenho enfrentado, há mais de um ano, uma recaída que me fez perder quase 15kg. Sem querer parar minha vida, durante todo o tempo sempre fui muito resistente à internação. Quando sugerida por profissionais, eu sempre preferia tentar de novo, por mim mesma, sem necessidade de me recolher... Até porque já passei por internações antes, e sei o quanto são difíceis, no mínimo, quando não são ineficientes, no caso de um transtorno alimentar... bicho que poucos lugares sabem olhar. Bicho esquisito... Cada vez pior, me vi sem saída uma hora, quando um psiquiatra novo, na primeira consulta, disse que não poderia fazer nada por mim se eu não fosse internada, que eu poderia morrer, era só questão de tempo. Na verdade eu já sabia disso, estava levando a vida apesar disso (e continuo). Meus pais é que estavam com dificuldades de aceitar a gravidade do problema. Eu, é claro, não contribuía para que eles enxergassem nada. Pelo contrário, minha intenção sempre caminhou no sentido da camuflagem, querer sumir. Mas, nesta consulta, caíram em si. O psiquiatra sugeriu que eles batessem de porta em porta atrás de um hospital que me aceitasse... Saímos de lá mudos, meus pais muito bravos comigo e muito preocupados também. O fato é que, com minhas próprias pernas, acabei indo ao hospital, aceitando uma internação. Hoje tenho a impressão de que foi a última vez... 

A todo momento vinha na minha cabeça algo como “eu sabia...” que não daria certo ou qualquer coisa do tipo. Não foi uma profecia autorrealizável, mas mais uma constatação, infelizmente, do despreparo dos hospitais – seja um hospital geral ou um hospital psiquiátrico – em lidar com o transtorno alimentar. Há quanto tempo eu não lembrava disso na própria pele! Quando penso que posso ser muito exigente... Sim, posso e devo. Pois não devemos, todos, ter direito a um tratamento adequado de nossas doenças, sejam elas físicas ou mentais? Fui para um hospital geral, onde fiquei internada num quarto que parecia um quarto de hotel. À minha disposição: armários, pias, banheiro e até um frigobar. No primeiro dia joguei parte da comida no lixo e me tiraram a lixeira, como se frente a todo este aparato fosse fazer alguma diferença. Logo percebi que eu podia deitar e rolar, tudo continuaria sob o meu controle, ou pelo menos uma boa parte das coisas... Ninguém ali dentro sabia do essencial: uma pessoa com anorexia agirá, sempre – quando em crise, como era e continuou sendo o meu caso – a favor de sua doença, não a favor de sua saúde. O que alguém deveria saber, mas não sabia, passou a ser, então, o meu segredo e eu precisava mantê-lo em segurança para me manter relativamente calma ali, nos dez dias que se passaram. Só não escondi comida no teto porque não alcançava. Tomava o soro que era prescrito na bomba de infusão, mais difícil de descartar, e descartava o restante. Simples assim, eu escolhia o que iria entrar no meu corpo. Coloquei isto na cabeça: eu sempre escolheria o que entraria no meu corpo, jamais poderiam me forçar a nada. Depois de algum tempo comecei a descartar a comida armazenada no frigobar e no cofre do armário (sim, tinha um cofre no armário; seria cômico se não fosse trágico), mas antes pensava em deixá-la lá para que, depois que eu fosse embora, os enfermeiros pudessem tirar dessa experiência alguma noção sobre a anorexia. Acabei é ficando envergonhada, porque confiaram em mim e eu não quis decepcionar, então... teatro mantido até o fim. 



Cá entre nós, imagine só. Você interna um dependente químico e quando ele chega no lugar, tem a droga, a colher, o isqueiro, tudo o que precisa, além de toda a privacidade. Ele pode escolher não usar, não cair em tentação, mas ele também pode estar muito doente e não conseguir. Fica claro que fazer isso com um dependente químico seria muita sacanagem, mas não fica claro que fazer o mesmo com alguém que tem um transtorno alimentar é sacanagem igualmente. Fui me revoltando ao longo dos dias, queria sair dali logo... Via que a internação não estava me ajudando, mas, ainda assim, como tinha que repor sais minerais e outros nutrientes, dezenas de vitaminas, tive que esperar com alguma paciência. Que se esgotou no momento em que meu médico me mostrou claramente que estava perdido, sempre inventando algo, sem saber qual medida tomar e atirando para todos os lados. O "tratamento" virou piada. Foi absurdo tudo o que se passou. Seria perfeito se, já que aceitei ser internada finalmente, eu tivesse encontrado alguma forma de me ligar à saúde, minimamente. Mas não foi possível... Como eu disse, o essencial não sabiam e eu não deveria me culpar, mas acabo me culpando, sim, me escondendo - e as coisas seguem cada vez mais camufladas. Agora é como se eu não tivesse mais nada além de uma máscara a sustentar, a fim de manter o controle da única coisa que eu sei que continuará sempre sob o meu controle: o que entra e o que sai do meu corpo. Não sei porque isso é tão importante para mim, mas defendo com unhas e dentes. Sinto quase como que se tivesse que pedir perdão... Mas é... “sinto muito, tenho um transtorno alimentar”.

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