sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Dia em que Parei de Funcionar

Por Manoella Oliveira





Durante a semana inteira ignorei os sinais do meu corpo e, um dia, ele resolveu dar um grito comigo. Parei de funcionar, em pleno plantão. Fui ao hospital, consultei com três médicos diferentes e minha gaveta se transformou numa minifarmácia. Fiquei de cama a semana toda sem a menor condição de levantar dela para trabalhar, sem a menor vontade de comer e urrando de dor. 

E a gente conhece alopatia: o remédio que melhora uma dor dá problema no estômago e te causa afta e o remédio para o estômago te dá náusea e o usado contra náuseas te dá dor no pé e você gasta muito dinheiro e tem milhares de efeitos colaterais e horários para tomar comprimidos. Mas eu me safei de parte disso graças ao meu homeopata que mora em outra cidade, mas fez a gentileza de me atender por telefone. Ufa!

Eu poderia dizer que a culpa disso é uma herança genética indesejada e, em parte, é mesmo, mas a verdade é que muito disso é decorrente da minha má alimentação. 
Eu me preocupo em comer bem e não me entupir de conservantes e aromatizantes, mas acho que sou uma “preocupada nível 1”: paro na fase da preocupação, antes de agir de fato. É o pão “porque é mais rápido”, o biscoito recheado “porque é mais prático”, o chocolate “porque eu mereço, depois desse dia cão” e a única refeição saudável acaba sendo o almoço. É o suficiente? Não! Isso é me comportar a favor de mim? Definitivamente, não.

A dor e a difícil sensação de fragilidade que eu senti foram horríveis, sufocantes, e fui forçada a entrar em contato comigo num nível delicado. Ficar uma semana presa na cama faz pensar, repensar e reinventar e cuidar do corpo doente, sozinha, por tanto tempo, mudou minha relação com ele. Foi um período de muito choro, muita conversa comigo mesma e muita respiração profunda. Emagreci da pior maneira possível e extrapolei a cota de lágrimas de 2010.

Como vocês podem perceber, eu sou a última pessoa na existência terrestre que poderia dizer a alguém para comer direito. Logo eu, que sempre digo que “como alface por obrigação moral de bailarina”. Não curto alface, isso é fato, mas existem outros alimentos que têm os mesmos nutrientes e existem complementos alimentares e molhos gostosos. A questão é ingerir o que precisamos, independente da fonte e da maneira. O lamentável é tomar isso como verdade apenas depois de passar por uma situação crítica. Não dá para tomarmos consciência de nós mesmos de outra forma? Ontem mesmo, descobri um sacolão ótimo perto de casa, que me inspirou a cozinhar e a viver bem. Fiquei muito feliz com por conta de uma bobagem dessas e já mudei meus hábitos. Não estou comendo bem porque me obrigaram ou pela proximidade do verão.

No tal hortifruti, tinha uma criança muito fofa que olhava para todas aquelas cores dos legumes e frutas maravilhada. “Paaai, olha esse mamão!” e pegou o saco transparente cheio de pedacinhos cortados. O pai, risonho, explicou que aquilo, laranja, era abóbora. Em seguida, o menino pegou outra embalagem, ainda mais feliz: “Paaaai, é macarrão verde! Pai, existe macarrão verde?”, perguntou já desconfiado. “É alho-poró, meu filho”. A empolgação dele chegou até mim e contagiou todos os clientes, por isso, resolvi experimentar aquelas cores não apenas com os olhos, mas explorar os sabores de verdade, cozinhar, me refrescar.

Agora, venho aqui cumprir com minha real obrigação moral: alertar e desejar que vocês cuidem da alimentação não por motivo de revista de dieta ou frustração de xingo de mãe na infância, mas por você, pelo seu bem-estar e, acima de tudo, por amor-próprio.


Manoella Oliveira é jornalista formada pela UFMG, bailarina clássica pela Royal Academy of Dancing e pratica modern-jazz. Acredita nas crianças para a construção um futuro melhor e por isso colabora em veículos direcionados ao público infantil como Atrevidinha (Escala), Meu Planetinha e Recreio (Abril) – além de ter ministrado aulas de balé para os pequenos por dez anos. É mineira, vegetariana, amante do silêncio e respeita a integração com a natureza, o que ganhou mais força ao trabalhar como repórter no Planeta Sustentável. Busca a harmonia, acredita no poder do diálogo e acha que ser mulher é, acima de tudo, superdivertido. 
Manoella escreve para o blog Tato (www.maistato.com.br) de onde o texto acima foi retirado.

4 comentários:

Natalia Bonfim disse...

Muito bom! ;)

Insana disse...

Se você nao se amar..Quem poderar fazer isto por você?

bjs
Insana

Anônimo disse...

La ringrazio per Blog intiresny

Anônimo disse...

imparato molto