sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Novas Perspectivas


Por Isabela Mariotto


A peça Quase Muda, dirigida por Rafael Masini, se propõe a mostrar um novo olhar sobre um tema complexo: a anorexia. Ao invés de trabalhar questões sobre a doença propriamente dita, enfoca as experiências de alguém que viveu nesse estado por alguns anos. Trata-se de Natalia Bonfim, autora de Patativas, livro no qual a peça se baseia. Desse modo, Quase Muda apresenta uma perspectiva diferente daquela veiculada pelos meios de comunicação, revelando reflexões profundas acerca da condição retratada.

Nesse sentido, a direção complementa perfeitamente a proposta. Valendo-se de metáforas, a peça abarca a mente da personagem, representada por quatro atrizes. As palavras da autora são transformadas em imagens a partir de elaborados jogos corporais; a beleza sobre a qual a peça se constrói anda de mãos dadas com a complexidade do tema explorado. Assim, forma e conteúdo confluem, criando uma atmosfera real embora metafórica. E é a partir dessa realidade criada que a personagem Natalia torna-se completamente compreensível para os espectadores.

É sobre uma viagem ao interior da personagem que a peça se ergue. A própria escolha pelo local de apresentação, o Instituto A Casa, contribui para a criação da atmosfera em questão. A apropriação deste espaço como cenário da obra revela o mergulho tanto das atrizes, como do diretor, no universo da personagem. A partir do modo como é explorado, o Instituto torna-se o fio condutor da peça.

Inicialmente, os espectadores são levados a uma sala pequena, onde todos mal cabem. As luzes, posicionadas no meio da platéia, conferem ao ambiente um calor desagradável. As grades na janela, por sua vez, tornam o local ainda mais claustrofóbico. À primeira vista, todos esses elementos podem ser considerados problemas de infra-estrutura. Entretanto, ao serem observados a partir de uma perspectiva geral, esses defeitos transformam-se em componentes que auxiliam o desenvolvimento da peça.

Isso se torna claro quando esse primeiro momento da peça é comparado com o final, encenado numa espécie de pátio interno do Instituto. Este novo cenário, mesmo que delimitado por paredes, é mais amplo e aberto em relação à sala descrita acima. No pátio, as atrizes ganham liberdade espacial; correm por toda a área, ora se distanciando ora se reaproximando. O corpo, dessa forma, ganha contornos mais flexíveis.

Assim, o espaço configura-se como princípio estruturador da obra. No início, as palavras de Natalia são marcadas pela confusão. A turbulência de idéias, a dificuldade de nomear sentimentos, a ação como expressão única da emoção. Entretanto, toda essa explosão visceral da personagem ganha limites em seu próprio corpo, em função de sua doença. Uma sensação aprisionadora que, por sua vez, remete à pequena e abafada sala. Logo, conforme a personagem caminha para o auto esclarecimento, para a exploração da palavra como artifício libertador, a peça passa a acontecer num espaço aberto, onde a personagem ganha a `liberdade na amplidão'¹.

Ao longo de todo esse percurso, é possível observar um processo de amadurecimento por parte de Natalia. Essa constatação se manifesta no tipo de linguagem utilizada na peça: irônica e sarcástica. É só com a conquista da auto confiança que a personagem pode debochar de si própria e dos outros que vivem à sua volta. Desse modo, as pinceladas cômicas que permeiam toda a obra (a imitação ridícula de uma funcionária do hospital psiquiátrico; a banalização das tias de Natalia, etc.) são completamente coerentes com a densidade psicológica da peça. É o tipo de comédia que faz chorar.

A interpretação também revela uma forte carga irônica. As atrizes brincam com a própria personagem, ironizando sua postura e seus pensamentos. As meninas parecem se sentir à vontade com o papel: mostram domínio sobre os sentimentos em questão, e em alguns momentos agem como se realmente tivessem experimentado algo parecido. O trabalho que apresentam exprime, dessa forma, a pesquisa minuciosa sobre o universo discutido. Por outro lado, o grupo não se mostra perfeitamente afinado em todas as passagens; em alguns instantes, há um descompasso entre o trabalho das atrizes e a substância do texto. Essa sensação se concretiza ao perceber que algumas falas não ganham a força que seu conteúdo exige ao serem articuladas. Uma vez que o texto apresenta enorme profundidade, torna-se difícil a sustentação desse peso pelas atrizes ao longo de toda a peça. Nota-se, assim, que algumas falas são jogadas em cena sem serem devidamente trabalhadas, fazendo com que os espectadores se percam em meio às informações mal amarradas. Dessa forma, belíssimas frases, por serem complexas, passam despercebidas.

Ainda em relação ao trabalho das atrizes, estas demonstram um grande controle sobre seus próprios movimentos, usando-os de acordo com a demanda de cada cena. Uma vez que o tema em questão gira em torno do corpo e de seus limites, a expressão corporal é destacada, unindo-se ao texto de forma harmoniosa. A partir do corpo, a repressão inicial contrasta com a liberdade final da personagem.

Outro ponto interessante é a utilização de quatro atrizes para a representação de uma única personagem. Esta escolha humaniza a temática retratada, pois as meninas refletem as diferentes tonalidades do interior de Natalia. Ao fragmentar sua interioridade, é possível entendê-la ainda melhor, observando suas diversas facetas e distanciando-se do senso comum. Logo, são criadas diferentes perspectivas sobre o mesmo assunto, permitindo total liberdade em relação à compreensão da peça por parte dos espectadores.

Desse modo, Quase Muda supera as expectativas. A partir de inúmeros recursos artísticos, como o uso do espaço e do corpo, é criado um leque de possibilidades acerca da apreensão do sentido total da obra, levando à formulação das mais diversas interpretações. É essa liberdade interpretativa que confere riqueza à peça, despertando no espectador novos olhares. Olhares que, acima de tudo, valorizam o ser humano.


¹ frase de Caetano Veloso em O Quereres.

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Natalia Bonfim faz parte da articulação da RISSCA. Em 2010 lançou o livro Patativas, que em outubro e novembro do mesmo ano esteve em cartaz no Instituto A Casa, adapatado pelo diretor Rafael Masini na peça Quase Muda.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O Dia em que Parei de Funcionar

Por Manoella Oliveira





Durante a semana inteira ignorei os sinais do meu corpo e, um dia, ele resolveu dar um grito comigo. Parei de funcionar, em pleno plantão. Fui ao hospital, consultei com três médicos diferentes e minha gaveta se transformou numa minifarmácia. Fiquei de cama a semana toda sem a menor condição de levantar dela para trabalhar, sem a menor vontade de comer e urrando de dor. 

E a gente conhece alopatia: o remédio que melhora uma dor dá problema no estômago e te causa afta e o remédio para o estômago te dá náusea e o usado contra náuseas te dá dor no pé e você gasta muito dinheiro e tem milhares de efeitos colaterais e horários para tomar comprimidos. Mas eu me safei de parte disso graças ao meu homeopata que mora em outra cidade, mas fez a gentileza de me atender por telefone. Ufa!

Eu poderia dizer que a culpa disso é uma herança genética indesejada e, em parte, é mesmo, mas a verdade é que muito disso é decorrente da minha má alimentação. 
Eu me preocupo em comer bem e não me entupir de conservantes e aromatizantes, mas acho que sou uma “preocupada nível 1”: paro na fase da preocupação, antes de agir de fato. É o pão “porque é mais rápido”, o biscoito recheado “porque é mais prático”, o chocolate “porque eu mereço, depois desse dia cão” e a única refeição saudável acaba sendo o almoço. É o suficiente? Não! Isso é me comportar a favor de mim? Definitivamente, não.

A dor e a difícil sensação de fragilidade que eu senti foram horríveis, sufocantes, e fui forçada a entrar em contato comigo num nível delicado. Ficar uma semana presa na cama faz pensar, repensar e reinventar e cuidar do corpo doente, sozinha, por tanto tempo, mudou minha relação com ele. Foi um período de muito choro, muita conversa comigo mesma e muita respiração profunda. Emagreci da pior maneira possível e extrapolei a cota de lágrimas de 2010.

Como vocês podem perceber, eu sou a última pessoa na existência terrestre que poderia dizer a alguém para comer direito. Logo eu, que sempre digo que “como alface por obrigação moral de bailarina”. Não curto alface, isso é fato, mas existem outros alimentos que têm os mesmos nutrientes e existem complementos alimentares e molhos gostosos. A questão é ingerir o que precisamos, independente da fonte e da maneira. O lamentável é tomar isso como verdade apenas depois de passar por uma situação crítica. Não dá para tomarmos consciência de nós mesmos de outra forma? Ontem mesmo, descobri um sacolão ótimo perto de casa, que me inspirou a cozinhar e a viver bem. Fiquei muito feliz com por conta de uma bobagem dessas e já mudei meus hábitos. Não estou comendo bem porque me obrigaram ou pela proximidade do verão.

No tal hortifruti, tinha uma criança muito fofa que olhava para todas aquelas cores dos legumes e frutas maravilhada. “Paaai, olha esse mamão!” e pegou o saco transparente cheio de pedacinhos cortados. O pai, risonho, explicou que aquilo, laranja, era abóbora. Em seguida, o menino pegou outra embalagem, ainda mais feliz: “Paaaai, é macarrão verde! Pai, existe macarrão verde?”, perguntou já desconfiado. “É alho-poró, meu filho”. A empolgação dele chegou até mim e contagiou todos os clientes, por isso, resolvi experimentar aquelas cores não apenas com os olhos, mas explorar os sabores de verdade, cozinhar, me refrescar.

Agora, venho aqui cumprir com minha real obrigação moral: alertar e desejar que vocês cuidem da alimentação não por motivo de revista de dieta ou frustração de xingo de mãe na infância, mas por você, pelo seu bem-estar e, acima de tudo, por amor-próprio.


Manoella Oliveira é jornalista formada pela UFMG, bailarina clássica pela Royal Academy of Dancing e pratica modern-jazz. Acredita nas crianças para a construção um futuro melhor e por isso colabora em veículos direcionados ao público infantil como Atrevidinha (Escala), Meu Planetinha e Recreio (Abril) – além de ter ministrado aulas de balé para os pequenos por dez anos. É mineira, vegetariana, amante do silêncio e respeita a integração com a natureza, o que ganhou mais força ao trabalhar como repórter no Planeta Sustentável. Busca a harmonia, acredita no poder do diálogo e acha que ser mulher é, acima de tudo, superdivertido. 
Manoella escreve para o blog Tato (www.maistato.com.br) de onde o texto acima foi retirado.