quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Terapia familiar... no Ambulim

Terapia familiar é a mais eficaz para tratar anorexia 
FOLHA DE SÃO PAULO, 12/10/2010
Juliana Vines

A terapia familiar é duas vezes mais eficaz no tratamento da anorexia nervosa do que a terapia individual. 

Uma pesquisa da Universidade de Stanford em parceria com a Universidade de Chicago, nos EUA, comparou os dois tipos de tratamentos em 121 pacientes de 12 a 18 anos.
Aqueles que tiveram apoio e acompanhamento de pais e irmãos se recuperaram mais rapidamente e melhor. 

Para Ester Zatyrko Schomer, psicóloga clínica e terapeuta familiar do Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares (Ambulim) do Hospital das Clínicas da USP, tratar a família toda é mesmo mais eficaz do que acompanhar apenas o paciente.
"A rotina familiar pode ter relação com a determinação ou a continuidade da doença. Essa é a terapia mais abrangente, porque cada um descobre o que precisa fazer para ajudar."
Uma pessoa com anorexia é capaz de desestabilizar toda a casa. Em geral, quando os pais procuram ajuda para os filhos, eles mesmos já estão precisando de apoio. 

"Eles se sentem impotentes e já estão cansados. Isso gera conflitos, agressões das duas partes e perda do diálogo", diz a médica psiquiatra Maria Angélica Nunes, coordenadora do Grupo de Estudos e Assistência aos Transtornos Alimentares (Geata), de Porto Alegre.
A forma mais comum do tratamento familiar coloca o paciente, irmãos e pais na mesma sessão. A primeira lição que os pais aprendem é que eles não são e nem devem se sentir culpados.

"Há muitas causas para um transtorno alimentar. É impossível falar em culpados. Os pais precisam recuperar a autoestima e a autoridade. Eles são as melhores pessoas para orientar e ajudar os filhos doentes", afirma Liliane Kijner Kern, médica psiquiatra do Programa de Orientação e Assistência a Transtornos Alimentares (Proata) da Unifesp.
Em uma das sessões, por exemplo, todos são convidados a almoçar no consultório. O terapeuta assiste a tudo e apoia os conselhos dos pais para reforçar a autoridade.

ERROS
Segundo Kern, sem orientação, muitas vezes as famílias tomam rumos errados. Há, segundo ela, duas atitudes comuns que só fazem alimentar a doença. A primeira delas é insistir para que o paciente coma.


"É uma guerra sem solução. Os pais tentam argumentar sobre a comida, o número de calorias e não adianta. A doença é sempre mais forte", diz a psiquiatra.
Outro problema é ceder às exigências do paciente. Quem tem um transtorno alimentar tenta controlar a alimentação da família toda e faz chantagens para isso. "Ceder só fortalece o mau comportamento do paciente", explica a médica.
Todos os integrantes da família precisam estar abertos ao diálogo, esquecer as cobranças e fazer acordos.

"Firmamos um acordo sobre como vai ser a alimentação naquela semana, e precisamos da família para fiscalizar se o cardápio está sendo cumprido. É um plano discutido e firmado entre o paciente, o terapeuta e a família. Essa é a maior ajuda que a família pode dar", afirma a nutricionista Fernanda Pisciolaro, da Associação Brasileira paro o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso).

"Mais minha mãe pedia e menos ainda eu comia"



Seis anos atrás, a professora Renata Lima de Oliveira, então com 19 anos e 59 kg, decidiu que precisava emagrecer. O objetivo era chegar aos 40 kg, mesmo tendo 1,74 m de altura. Com uma dieta radical, em poucos meses ele atingiu 48 kg. Mas ainda não estava satisfeita. "Comecei a provocar vômitos depois que comia. Sentia que ainda estava cheia, então bebia água para vomitar mais."

Durante um ano, sua mãe, Edna Lima de Oliveira, não desconfiou de nada.
"Uma prima descobriu e ameaçou contar tudo. Então, eu mesma contei para minha mãe. Foi horrível. Nossa relação piorou. Não sabia mais como falar com ela. Quanto mais a minha mãe pedia para eu comer, menos ainda eu comia". Contra a vontade, Renata fez 12 sessões de terapia e, quando melhorou, parou. Logo, tudo voltou como era. "A doença era a minha rotina. Comer mal e vomitar fazia parte do cardápio". E nada que sua mãe fazia a ajudava, conta. 

A mãe, Edna, explica que perdeu um filho com leucemia: "Ele queria comer e não conseguia. Eu não me conformava de a Renata poder comer e não querer". Foram quatro anos de desentendimentos. No começo do ano passado, Renata cedeu e procurou ajuda no Hospital das Clínicas. Lá, sua mãe e sua irmã mais velha foram convidadas a participar da terapia. Como o quadro era sério, Renata acabou internada. 

"Com a internação e a terapia, tudo começou a melhorar. A Renata entendeu que precisava de ajuda e nós aprendemos a vigiar sem sufocar", disse a mãe.

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NOSSAS CONSIDERAÇÕES:

TERAPIA FAMILIAR É OUTRA COISA!


Em primeiro lugar, terapia famíliar é um evento dos mais raros nos centros de tratamento. O tratamento, no Ambulim, se dá durante o horário comercial de um dia "normal" da semana e isso já é álibi suficiente para que um dos pais esteja ausente.

Em segundo lugar, é irritante essa terapia familiar com foco na comida. "São feitos acordos e a família inspeciona se a paciente os está cumprindo." "Os pais são incentivados a retomar sua posição de autoridade." Que loucura!  As circunstâncias podem mudar profundamente quando as pessoas se dispõem a mudar, mas essas terapias familiares parecem propor "integrantes não-anoréxicos da família, uni-vos e exorcizai essa anoréxica endemoniada - aleluia!!!". Terapia familiar, na nossa opinião, é outra coisa.

2 comentários:

Luticar disse...

A família tem que participar e ter alguma orientação, pois muitos não têm ideia de como lidar e acabam fazendo besteira.

Mas armar um time contra o anoréxico eu acho que é fazer besteira também e acaba dando o efeito contrário. Em vez de encontrar o aconchego na família, a pessoa encontra supostos inimigos... e com inimigos as pessoas lutam ou fogem, não cedem.

Nati disse...

Sem comentários... Parabéns pra Renata, que APESAR do sistema da coisa conseguiu superar o T.A. - acredito (e por conhecê-la) que muito mais por mérito dela própria do que de qualquer psi - e muito menos da tal "terapia de família" - ou a reunião que assim foi conveniente chamar.